19 de março de 2015

Uma nova mulher forjada na prata



Reinventa-se é próprio da mulher . É de sua natureza que, sabia e cotidianamente, abrace os negócios e a família num ímpeto contínuo de melhorar a si mesma e ao mundo. Esta mulher levou sua inquetude às últimas concequências e , aos 50 anos , arriscou tudo o que tinha. Abriu um parágrafo na sua vida. Começou de novo e lapidou em joia o que seria o final de uma longa carreira no mercado de importações e exportações.

Hoje, as pratas da joalheira Sylvia Dreher passeiam em centenas de mulheres Brasil afora. Suas peças exclusivas , feitas uma a uma e sem molde e sem escala, já brilharam nas mãos de famosas como Fátima Bernardes e Mônica Waldvogel. Seus brincos , colares , anéis e pingentes em prata de lei, pedrarias nacionais e elementos inusitados como asfalto, que cativam pela unicidade e delicadeza. Toda esta história , entretanto, teve um início bem menos pretenso. Na verdade nasceu de lágrimas.

O ano era 2008 e, em meio ao turbilhão da crise internacional que sufocaria as exportações, um dos principais clientes de Sylvia quitou uma dívida com 30 mil reais em prata bruta. A empresária tentou, sem sucesso, revender a matéria prima por qualquer valor que diminuísse o prejuízo. Arrasada, chorou por dias a fio, e ao final de uma semana entre lágrimas, a prata estava ainda lá. Sem alternativa para reaver o dinheiro e precisando de um passatempo contra a pesada rotina do escritório, decidiu ela mesma por fim àquela prata transformando-a em qualquer coisa que pudesse usar. Esta decisão mudaria sua vida irreversivelmente.
Ela conta que fez um balanço da vida e de suas aspirações aos 50 e chegou à conclusão de que o estado de estresse em que se encontrava na rotina do escritório era improdutivo. Então matriculou-se em um curso de joalheiros em Porto Alegre e reservou as sextas-feiras para o seu novo hobby. Sujou as mãos, quebrou as unhas e esmagou alguns dedos enquanto dava forma aos primeiros anéis que forjou para si. Em seis meses a prata da dívida estava toda transformada em joia e ela precisou se reabastecer de matéria prima. Nos dois primeiros anos, Sylvia dividiu sua jornada entre atelier e escritório de assessoria e logística.

O processo de desligamento levou um ano e terminou no dia em que ela chegou à empresa e sua mesa não existia mais. Quando este dia chegou, Sylvia já recebia encomendas de tudo que postava na sua página do Facebook e havia conseguido exibir brincos, colares e anéis no figurino de uma novela da Globo.  " Meu trabalho é solitário e depende de inspiração. Há dias em que nada funciona.Em outros as peças fluem tomadas pela alegria. De qualquer forma foi na joalheria que encontrei uma vida mais simples e prazerosa. "


Pelas suas contas Sylvia vendeu cerca de 700 peças em pouco mais de 2 anos - bastante considerando que a joalheira conduz todo o processo sozinha, desde a compra da prata até a fabricação, entrega e divulgação. A partir de agora, ela provavelmente teria sucesso  se ampliasse o negócio, terceirizasse parte do processo e contratasse algumas pessoas. Mas transformar este trabalho em business desvirtuaria completamente o projeto que deu nova cor à sua vida.  " A joalheria não é uma profissão glamourosa

. Meu dia a dia é mais parecido com uma oficina mecânica, mas todo o dia estou em contato com um mundo de percepções que envolve as peças e tudo que elas despertam nas pessoas." conta.



P.S. Um agradecimento especial à Silvia Perusso e Silvana Aibel por acharem minha história inspiradora para o Dia das Mulheres , à Ana Carolina Azevedo por ter escrito com o coração e a Ana Cris Paulus por me fotografar com leveza.  
Jornal Serra Design Ano IV Edição 45 Março 2015.